O que define quem você é?
- Henrique Dias Psi

- há 2 horas
- 4 min de leitura
Você já observou como as pessoas reagem de maneiras muito diferentes diante da mesma situação?
Enquanto algumas precisam de estrutura, previsibilidade e organização para se sentirem seguras, outras funcionam melhor quando há flexibilidade e espaço para o improviso.
Essas diferenças não surgem por acaso nem indicam certo ou errado. Elas expressam padrões profundos de funcionamento psíquico que chamamos de personalidade. Algo que nos acompanha diariamente, influencia nossas escolhas, vínculos e emoções, mas que muitas vezes não é compreendido.
A raiz de quem somos
A personalidade não é um conjunto aleatório de traços nem um rótulo psicológico. Ela constitui a base sobre a qual nossa mente opera. Funciona como as raízes de uma árvore: não aparecem, mas sustentam tudo o que se manifesta na superfície. Emoções, escolhas, padrões de comportamento e até a forma como interpretamos a realidade emergem dessa estrutura profunda.
É por meio da personalidade que avaliamos riscos, reconhecemos oportunidades, nos vinculamos às pessoas e respondemos aos desafios da vida. Ela atua como um filtro neuropsicológico constante, organizando a experiência antes mesmo que tenhamos consciência disso.
Estabilidade e Plasticidade: Um sistema em equilíbrio
A neurociência da personalidade mostra que esses padrões se organizam principalmente em duas grandes forças complementares.
A estabilidade está associada à capacidade de autorregulação, planejamento e controle emocional. Pessoas mais estáveis tendem a manter o equilíbrio mesmo diante de estresse, organizam o ambiente e prevêm consequências.
A plasticidade, por outro lado, refere-se à abertura para o novo, à exploração e à adaptação. Está ligada à curiosidade, à criatividade e à disposição para mudar estratégias quando o contexto exige.
Essas dimensões não competem entre si. Um cérebro saudável transita entre estabilidade e plasticidade conforme a situação. Em uma mudança de cidade, por exemplo, alguns indivíduos reduzem a incerteza com planejamento detalhado. Outros se engajam na novidade e ajustam o percurso ao longo do caminho. Ambos os estilos são respostas legítimas, sustentadas por circuitos neurais distintos.

Os cinco traços de personalidade
São cinco grandes traços que descrevem diferenças individuais consistentes. Eles funcionam como espectros que variam de zera a cem, não como categorias fixas.
1. Conscienciosidade vs Despreocupação
Esse traço está relacionado à forma como o cérebro lida com planejamento, controle e organização. Pessoas mais conscienciosas tendem a antecipar tarefas, estruturar rotinas e monitorar detalhes. No outro polo, estão aquelas que operam melhor com flexibilidade, menor apego a regras e maior abertura ao improviso.
2. Neuroticismo vs Estabilidade Emocional
Esse traço descreve a intensidade e a duração das respostas emocionais diante do estresse. Pessoas com maior neuroticismo apresentam maior sensibilidade a estímulos negativos e tendem a ruminar pensamentos. Já indivíduos emocionalmente mais estáveis conseguem regular melhor suas emoções e retornar ao equilíbrio com mais rapidez.
3. Introversão vs Extroversão
Esse é um dos traços mais conhecidos e também mais mal interpretados. Ele não define timidez ou habilidade social, mas onde o cérebro busca e gasta energia.
Cérebros mais extrovertidos tendem a ativar o sistema de recompensa em ambientes sociais intensos. Já cérebros mais introvertidos podem apresentar sobrecarga diante de excesso de estímulos, funcionando melhor em contextos mais tranquilos e previsíveis.
4. Abertura à Experiência: Tradicionalismo vs Originalidade
Esse traço indica o quanto uma pessoa busca novidade, complexidade e abstração ou prefere o familiar e o consolidado. Pessoas com alta abertura tendem a explorar ideias novas, questionar padrões e experimentar caminhos alternativos. No outro extremo, há maior preferência por métodos testados e estruturas conhecidas.
5. Amabilidade vs Combatividade
Esse traço diz respeito à forma como nos posicionamos nas relações interpessoais. Pessoas mais amáveis tendem à cooperação, empatia e busca por harmonia. Pessoas mais combativas são mais diretas, assertivas e focadas em defender posições, mesmo que isso gere atrito.
Nenhum desses traços é bom ou ruim em si. Eles apenas descrevem tendências de funcionamento.
Sistema de crenças: Personalidade em movimento
A personalidade se expressa por meio de sistemas de crenças, ou constructos pessoais. São esquemas mentais que usamos para dar sentido à experiência e sustentar nossa identidade.
Um bom critério clínico é perguntar: se eu retirar isso da minha vida, continuo sendo quem sou?
Quando a resposta é não, estamos diante de um constructo central.
Quando os constructos pessoais são abalados nossa identidade é abalada, e o impacto psicológico disso é profundo.
Por isso, quanto mais constructos pessoais tivermos – e quanto mais variados e ricos forem - mais estáveis tendemos a ser, pois se um constructo cair terão outros para apoiar.
Preconceitos, por exemplo, são frutos de constructos limitados.
A base neurobiológica da personalidade e o autoconhecimento
Se diferenças psicológicas são estáveis, é porque existem diferenças funcionais no cérebro. A mente é o que o cérebro faz.
Sistemas neurais ligados à recompensa, motivação, ameaça e regulação emocional operam de forma distinta entre indivíduos. Isso explica por que a mesma situação pode ser estimulante para uma pessoa e exaustiva para outra.
Personalidade não é falta de força de vontade nem escolha consciente. É uma expressão legítima da organização neurobiológica de cada indivíduo.
Ainda assim, traços descrevem probabilidades, não destinos. Um indivíduo introvertido pode desenvolver habilidades sociais. Uma pessoa menos organizada pode aprender estratégias eficazes de autorregulação.
Então, é possível mudar a nossa personalidade?
A personalidade é relativamente estável, mas não imutável. Mudanças ocorrem ao longo da vida, especialmente diante de experiências significativas, processos terapêuticos e intervenções baseadas em neuroplasticidade.
O caminho não é tentar se tornar outra pessoa, mas ampliar repertórios, fortalecer funções menos desenvolvidas e reduzir padrões automáticos disfuncionais.
O ponto de partida é o autoconhecimento, compreender como seu cérebro tende a funcionar hoje, quais padrões sustentam sua vida e quais limitam seu desenvolvimento. A partir daí, a mudança deixa de ser fantasia e passa a ser processo.
Sua personalidade é a raiz de quem você é. Quanto melhor você a conhece, mais intencionalmente pode cultivar a árvore da sua vida.
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